Como perguntar sobre experiências NHINCQ+?

Aviso de conteúdo: queermisia, misoginia, capacitismo, segunda pessoa, menções de pedofilia, zoofilia e estupro em alguns exemplos.

Written by AsterMay 12, 2020

Perguntar parece algo simples, não? Uma pessoa não sabe de algo, e daí pergunta. Se a pessoa não sabe de alguma coisa, a culpa não é dela, e qualquer pergunta é bem intencionada porque a pessoa só quer aprender, certo?

Não.

Perguntar sobre as experiências de grupos marginalizados pode ser, sim, uma ação ofensiva e prejudicial. E, por mais que saber de certas coisas seja necessário, e que seja difícil achar ou digerir certas informações, é importante pensar que perguntas podem revelar preconceitos e prejudicar a saúde mental de quem tem a "necessidade" de responder a pergunta.

Este texto tem o objetivo de:

Como é a questão com a qual eu tenho familiaridade, vou falar sobre questões NHINCQ+, mas isso pode fazer sentido para outros grupos também.

1. Algumas perguntas são pessoais demais

Talvez na primeira vez que alguém trans que escolheu um nome que reflete melhor seu gênero do que o nome com o qual a pessoa foi registrada ao nascer receba a pergunta "mas qual o seu nome de verdade?", a pessoa possa calmamente dizer que seu nome de verdade é seu nome atual, que seu nome morto é irrelevante, e que é considerada uma forma de cissexismo considerar o nome morto como algo "mais real" ou importante, e que não se deve se referir a qualquer pessoa com nomes que não usam mais, especialmente nomes que remetem pessoas trans de quando estavam no armário ou não sabiam que eram trans.

Talvez na décima vez que a pessoa receba esta pergunta, isso já seja motivo de bloqueio, de expor quem perguntou como alguém cissexista que deve ser evitade, ou de alguma outra "grosseria" que presume que não há motivo para perguntar isso que não seja prejudicar a pessoa que está recebendo a pergunta.

Não adianta dizer que o motivo era apenas curiosidade ou que quem perguntou não sabia usar termos como "nome de registro" ou "nome morto". Qualquer recurso com perguntas frequentes sobre ser trans fala que não é pra tratar nomes anteriores como de verdade, e que não se deve perguntar o "nome antigo" de alguém. Esse tipo de pergunta também lembra pessoas trans de que, pra muita gente, só o que importa é o nome e o gênero que atribuíram ao nascer.

Perguntas que colocam foco na vida pessoal de alguém e que não seriam feitas se a pessoa fosse cis/hétero/perissexo são, em geral, indelicadas e danosas. Se você tem curiosidade sobre a genitália de alguém, ou sobre a vida de uma pessoa trans antes de se descobrir trans, ou sobre como pessoas em certos relacionamentos fazem sexo, você provavelmente deve segurar sua curiosidade (caso a pergunta seja sobre uma pessoa específica, especialmente se você não tiver intimidade nenhuma com ela) ou fazer a pergunta em algum lugar mais apropriado para isso do que, por exemplo, mensagens pessoais para pessoas que não se disponibilizaram a responder esses tipos de pergunta.

Perguntar estas coisas evidencia o quanto essas pessoas são diferentes da norma, e dá a entender que suas diferenças da norma dão motivo para terem que falar tudo sobre sua vida e história pessoal (não importa o quanto isso possa ter a ver com falar de assuntos traumáticos) para satisfazer a curiosidade das pessoas em volta, ou até mesmo divertir pessoas que acham tal "estilo de vida" estranho.

2. Algumas perguntas mostram seu preconceito

"O que você quer dizer quando diz que apoia direitos de pessoas gays?" é uma pergunta que, ainda que seja estranha para pessoas que consideram a resposta óbvia ("que pessoas que são gays merecem os mesmos direitos de pessoas que não são"), pode parecer vir de um lugar de alguém que legitimamente não sabe o que isso significa e não tem uma posição em relação ao assunto, por julgar não saber o suficiente sobre ele.

Já "se você apoia os direitos de pessoas gays, isso significa que você apoia que homens gays estuprem homens hétero para virarem gays também?" é uma pergunta que presume:

(Existem, sim, pessoas cujas orientações foram moldadas por trauma/abuso. Porém, é uma experiência relativamente rara, e, pelo que vejo, em geral as pessoas perdem atração por todas as pessoas ou pelo gênero da pessoa que causou trauma/abuso. Ou seja, essa ideia de que "homens hétero viram gays por conta de estupradores gays" não tem base. De qualquer forma, o problema não é ter pessoas cuja orientação foi afetada por estupro ou outra experiência traumática, e sim a ideia de que o único motivo pelo qual alguém seria um homem gay é abuso sexual causado por homens gays.)

É muito difícil partir do ponto de que essa é uma pergunta inocente feita por curiosidade, ao invés de um pedido para que outra(s) pessoa(s) gaste(m) tempo e energia tentando argumentar contra mitos obviamente falsos que muito provavelmente nem vão mudar a cabeça da pessoa, já que ela provavelmente está fazendo essa pergunta por achar que essas coisas são verdade e que qualquer outra coisa é uma mentira para que a comunidade gay pareça melhor do que é. Também é bem provável que a pessoa não se contente com uma resposta que seja apenas "não", e queira provas ou justificativas além disso, ou um "debate" de experiências vividas por homens gays contra ideias infundadas feitas para que a sociedade odeie homens gays.

E, se alguém se recusar a responder a pergunta por conta disso (ou se recusar a responder perguntas/pedidos posteriores), isso provavelmente será usado como "prova" de que tais suposições homomísicas são verdade.

Talvez você pense que alguma pergunta tão tendenciosa seja bobagem reacionária, e que as suas perguntas, por serem de um lugar de ignorância, não chegariam neste nível.

Porém, perguntas como "se dissermos que demissexuais são LGBT, isso não daria abertura para que pedófiles sejam vistes como LGBT?" são frequentemente feitas por pessoas que se dizem "ativistas LGBT", e quando alguém não recebe bem a pergunta, essas pessoas se defendem dizendo que "só querem entender".

Tipo assim. Quando você está comparando uma orientação que envolve atração que pode ser recíproca consensualmente, ou uma identidade de gênero que não envolve justificativa para ferir outras pessoas, com uma compulsão por transar com alguém que não pode consentir, você está repetindo a retórica de que pessoas queer querem eventualmente "legalizar pedofilia" por serem pervertidas sexuais sem limites. Ainda que ela seja contra pessoas queer que você acha estranhas ou indesejáveis.

Você também está repetindo a ideia misógina de que um relacionamento é de "um homem e sua coisa". "Um homem e sua mulher" seria o padrão, o ideal; "um homem e seu homem" é assustador, porque não só dá a ideia de que um homem pode "ser posse" de outro, como também dá a ideia de que um homem pode "ter como posse" algo além de mulher, o que daria abertura para que relacionamentos também possam ser "um homem e sua criança", "um homem e seu animal" e afins.

Mesmo que não envolvam esse tipo de comparação ("se incluirmos [identidade inofensiva e coerente com di/cis/heterodissidência, mas ~esquisita~] como parte da comunidade, não significa que [identidade nada a ver ou danosa] deveria fazer parte da comunidade também?"), também é possível que sua "pergunta inofensiva" seja, de fato, ofensiva.

Se você realmente tem dúvidas, você não deveria partir do ponto de que seu preconceito está certo. Uma coisa é perguntar como pessoas assexuais heterorromânticas sofrem sob uma sociedade heterossexista (por exemplo), outra é proclamar que pessoas assexuais heterorromânticas não sofrem sob uma sociedade heterossexista porque você nunca viu provas disso e nem entende como alguém pode ser hétero e assexual ao mesmo tempo de qualquer forma, e daí pedir para que outras pessoas provem que você está errade se puderem.

É difícil responder a um ataque. Talvez a pessoa mude de ideia ao perceber que pessoas assexuais - mesmo heterorromânticas - sofrem com pressão para demonstrarem atração sexual, com a ideia de que relacionamentos "de verdade" precisem envolver sexo, com serem percebidas e tratadas como heterodissidentes por não demonstrarem um nível "normal" de atração sexual. Mas talvez - provavelmente, com base nessa postura - a pessoa já tenha sua opinião formada e vá rejeitar qualquer outra, independentemente dos fatos. Responder a um ataque também é arriscar sofrer ataques ou exigências pessoais, e/ou ser exposte como uma dessas pessoas que "estão traindo a comunidade" e que merecem chacota e ataques pessoais.

Você pode reclamar que alguém que vê alguma dessas perguntas cheias de preconceito implícito ou posições agressivas e responde de forma firme, indelicada ou extrema está "sendo pouco educative" e/ou "querendo que todo mundo nasça sabendo tudo", mas então o que as pessoas que estão tomando esse tipo de posicionamento preconceituoso por "não saberem" estão fazendo? Elas também não estão sendo educativas ou construtivas, estão impondo suas próprias visões de mundo ignorantes e forçando outras pessoas a terem que convencer a pessoa do contrário para que ela pare de espalhá-las.

Também existem perguntas que estão mais para ameaças ou pegadinhas. Se você pergunta para uma pessoa trans "tudo bem eu não querer namorar pessoas trans do gênero pelo qual me atraio?", você está obrigando a pessoa trans a decidir entre:

  1. Responder que, sim, você tem o direito de namorar quem você quiser, e assim admitir que você como pessoa trans precisa se sujeitar a ser indesejável para pessoas que supostamente sentem atração pelo seu gênero, ainda que isso frequentemente seja apenas pelo preconceito de como é e funciona o corpo de uma pessoa trans;

  2. Questionar que a pessoa provavelmente é capaz de sentir atração por pessoas trans, e que se ela não quer namorar pessoas trans é uma questão dela ser cissexista, e assim passar a impressão que pessoas trans querem "forçar pessoas cis" a se relacionarem conosco.

Isso não é nada legal, independentemente do quanto a pergunta da pessoa cis é "inocente" e tem o objetivo de provar ou desprovar o que pessoas cissexistas dizem (que pessoas trans querem enganar/forçar pessoas cis a transarem conosco).

Outro tipo de pergunta assim é quando alguém diz que, se não responderem, a pessoa vai presumir o pior. Ou seja, se ninguém se sujeitar a fazer uma resposta longa e convincente sobre porque pessoas não-binárias são "trans de verdade", ou sobre porque é relevante se identificar como tal identidade, a pessoa vai presumir que esses grupos realmente são inválidos, mentirosos, invasores da comunidade, etc.

Quando, na verdade, ninguém merece ter o trabalho de ter que ficar defendendo a própria existência constantemente.

3. Tempo, energia e saúde mental de pessoas marginalizadas é mais importante do que sua curiosidade ou "necessidade de saber"

Existem lugares próprios para fazer perguntas. Por exemplo, o blog Ajuda NHINCQ+ serve para isso. Lugares como o fórum do site Orientando e seu Discord também possuem áreas que servem para isso.

Também existem eventos aonde há a liberdade para fazer perguntas básicas sobre o assunto do tema.

Há pessoas por aí que vão dizer que estão abertas a perguntas. Há blogs que estão abertos a perguntas.

No entanto...

Uma pessoa não-binária aleatória que você achou no Twitter não merece a obrigação de responder suas perguntas sobre como não-binaridade funciona.

Uma pessoa pansexual que você conheceu num jogo não merece ter que responder a pergunta "mas se você se atrai por todo mundo, isso inclui crianças e animais?"

Você não deveria chegar em duas pessoas que parecem ser mulheres se beijando numa cafeteria e perguntar "mas hein, como é que vocês transam?"

Essas perguntas envolvem, novamente, a exigência de pessoas que não consentiram a isso terem que responder suas perguntas apenas por fazerem parte de um grupo marginalizado, aguentando seus preconceitos, e sob a ameaça de você taxar o grupo inteiro de algo ruim porque essas pessoas não quiseram gastar tempo e energia com isso. Tudo para terem a chance de curar sua ignorância e curiosidade (porque há sempre a possibilidade de você ignorar ou deturpar o que disseram).

Sendo que, muitas vezes, são perguntas que as pessoas vão "ter que" responder várias vezes, independentemente das respostas serem achadas com facilidade se a pessoa parasse para pesquisar. A coisa piora quando links explicativos são vistos como grosseria ou "longos demais" ou "difíceis de entender" (mesmo que estejam mastigados e não usem linguagem mais difícil do que a pessoa usaria se respondesse diretamente).

Mesmo as pessoas que se dispuseram a responder perguntas em certo lugar e/ou espaço de tempo ainda são pessoas, não serviços de dúvidas 24 horas. Não é nada legal ver suas notificações pessoais em programas/aplicativos de chat ou redes sociais e ter pessoas querendo saber se experiências como as suas existem mesmo. Ainda mais quando a sociedade já as invalida o tempo inteiro.

Ainda que se educar sobre questões de grupos marginalizados seja importante, não é legal colocar uma carga em pessoas marginalizadas de que elas sempre precisam ter disposição para explicar e esmiuçar tudo o que dizem, para que outras pessoas "entendam melhor". Isso também serve para quem faz conteúdo educativo; só porque alguém tem disposição para fazer alguns materiais, não significa que a pessoa também tenha a disposição para ficar o dia inteiro tentando fazer alguém entender os motivos de alguém querer usar certo rótulo (ou qualquer coisa parecida).

Para muita gente, interações pessoais são mais estressantes do que fazer textos/imagens/vídeos/etc., então essas coisas pesam. É uma pena que você não consegue entender que certa identidade é válida apenas por ler sua descrição, mas fazer campanhas contra pessoas por não deixarem seus materiais mastigados o suficiente para você é uma atitude que só prejudica pessoas NHINCQ+. Muitas vezes ela é capacitista também, por exigir colheres/habilidades sociais/capacidade de comunicação de pessoas que podem não ter essas coisas o tempo todo, ou que podem não ter elas nunca.

Conclusão / Resumo

Caso você queira ler mais do que eu escrevi sobre questões básicas de justiça social, talvez você se interesse nos textos Introdução a conceitos de justiça social, em formato de perguntas e respostas e Um guia introdutório para comunidades NHINCQ+ inclusivas.

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